newsletter #10.2/3
Uma Aventura em Jerusalém
De volta!
2o Dia
Então, neste primeiro a sério em Jerusalém acordei cedíssimo e às 8 da manhã já estava a calcorrear a Jaffa Street.
A maravilha de ser feriado em Jerusálem é que não há ninguém na rua e pode andar-se à vontade por onde se quiser!
Fui em direcção ao Jaffa Gate porque o plano para esse dia era em primeiro lugar caminhar um pouco pelas ruelas da Cidade Velha e depois ir ao Muro das Lamentações.
Como seria de esperar, adorei as lojinhas atafulhadas de mil e uma coisas!
O auge foi quando encontrei esta mercearia com uma pirâmide rigorosamente feita de várias especiarias!! Não sei como é que alguém consegue chegar a esta perfeição, mas suponho que quem a fez deva ter alguma obsessão maravilhosa com losangos porque também no balcão as diferentes especiarias estavam assim arrumadas!
Também gostei muito dos contrastes da luz com a sombra e destes espaços que uma pessoa fica a adivinhar como serão... Acho que é porque a minha costela moura se sente tanto em casa neste tipo de aglomerados urbanos...
De vez em quando consigo tirar estas fotografias mesmo boas dignas de um postal super turístico e fico toda contente comigo mesma a pensar que tenho um talento que poderei explorar um dia mais tarde quando me reformar...
Depois de mais umas voltas pelas ruelas, lá consegui encontrar o caminho para o Muro das Lamentações. Estranhamente não fui muito revistada -- pela minha experiência aqui, eles não são nada rigorosos com turistas ocidentais e ainda mesno com turistas asiáticos... Quando estou com a Nana, deixam-nos passar logo sem delongas... Devem achar que nós não temos ar de terroristas.
Depois de passar pelo detector de metais, desci umas escadas escuras e eis que se abre à minha frente o grande espaço aberto com o Muro lá à frente.
Também aqui, como podem ver, montaram uma grande cabana do Sukkot e é não só o sítio onde os judeus comem, como também onde devem poder fumar, já que estavam uns quantos rapazes de kippah (aquela rodelinha que usam na no topo da cabeça) embrulhados nos seus tallit (uns panos de algodão com umas riscas azuis) a dar umas passas encostados à estrutura de madeira.
Fui para a parte das mulheres -- sim, os judeus também gostam de separar as mulheres e crianças e todos os outros não judeus dos judeus puros e verdadeiros -- e sentei-me numa das cadeiras de plástico que lá estão. Ao meu lado estava uma senhora vestida com o modelito básico da mulher judia, (a saber: conjunto feio de blusa clara sem forma nenhuma com uma saia escura comprida, ténis feios e lenço feio enrolado à volta da cabeça) em pé e a ler de uma bíblia (?) umas rezas enquanto se abanava para a frente e para trás (pelo visto só com este movimento corporal é que a reza é eficaz). De vez em quando interrompia para ir admoestar alguém que estava a usar o telemóvel, máquina fotográfica, a escrever, basicamente a fazer tudo menos rezar, ou seja, também policiava a zona à volta dela.
Mais tarde quando pude ler o meu guia, fiquei a saber que se pode contratar alguém para ficar a rezar por nós em frente ao muro. É um serviço pago à hora e aparentemente deus não se importa que seja outra pessoa a fazê-lo por nós. Também soube que se pode pedir a alguém para ir lá deixar um papelinho se não pudermos lá ir nós mesmos.
Enquanto ali estava sentada a pensar na morte da bezerra e a descansar as minhas perninhas cansadas, não pude deixar de apreciar a diversidade de pessoas que ali vão rezar e deixar recados para deus no muro. À sua maneira, é um sítio muito democrático -- pelo menos esquecendo a parte da separação dos sexos -- e pode observar-se gente de todos os géneros e de todas as "classes sociais": as jovens mães judias que nem 30 anos têm e já andam com um rancho de filhos atrás, as mulheres das famílias ricas americanas cheias de jóias que dá para ver que são verdadeiras com uns miúdos todos aprumadinhos, as raparigas novas com as calças de ganga rasgadas, as turistas europeias vermelhas como camarões com sandálias ortopédicas e meia branca, senhoras indianas com as suas roupas maravilhosas que vêm em excursão para ver os lugares santos das outras religiões, freiras de hábito azul clarinho (descobri agora que pertencem à ordem das freiras franciscanas da imaculada) enfim, gente para todos os gostos!
Confesso que gastei um bocado do tempo que ali estive sentada a ponderar se também devia ir enfiar um papelinho numa das ranhuras do muro... Dei por mim a pensar nos significados que os humanos dão a coisas inanimadas e como para uns um monte de pedras pode ser sagrado e para outros é só isso mesmo, um monte de pedras sem mais nada... Concluí que como faço parte do segundo grupo, era parvo ir deixar um papelinho no muro, até porque, para dizer a verdade, já tenho tudo o que preciso e se fosse para pedir paz no mundo ou menos poluição na terra, posso fazê-lo em qualquer parte, com iguais probabilidades do meu pedido ser bem atendido...
Quando já estava a ficar farta de ali estar, vejo uns homens com umas vassoras e uns sacos do lixo pretos e dei-me conta que ia testemunhar um momento que já tinha visto num documentário sobre o muro que tinha visto em Tel Aviv na Cinemateca: são os homens do lixo que vêm varrer e apanhar os papelinhos que vão caindo do muro e que se acumulam por ali à beira!! Quando vi esta cena no filme, achei o máximo que as pessoas não se importassem que os seus desejos mais íntimos e sagrados fossem parar dentro de um saco de plástico preto do lixo, mas depois li no meu guia que de acordo com a lei judaica, os papelinhos são enterrados no Monte das Oliveiras 2 vezes por ano (mais uma vez, como têm espaço para tanto papel??) e por isso nunca são destruídos.
É claro que depois de saber estes pormenores, fiquei logo a pensar porque é que as pessoas se dão ao trabalho de escrever num papel o que querem visto que o papel não lá vai ficar... Não seria igualmente eficaz se pedissem o que desejam em pensamento e deus ia ouvi-las na mesma? Será que deus só atende pedidos por escrito?
Para finalizar, depois de rezarem e deixarem o papelinho enfiado no muro, não se pode virar as costas assim sem mais nem menos ao muro, tem de se vir a caminhar às arrecuas uns bons metros para trás -- com cuidado, para não tropeçar nas pessoas e nas cadeiras de plástico que por ali estão espalhadas -- até uma distância decente, e depois é que se podem virar e ir à sua vida. Também fiquei a pensar porque fazem isto, pois se deus está em todo o lado, não existe frente nem trás, a pessoa pode andar em qualquer direcção que está sempre virada para deus de frente...
Por tudo isto, posso dizer que foi uma experiência memorável que irei recordar para o resto da minha vida!
(aqui, a selfie final que tirei quando me estava a vir embora, onde podem apreciar a minha cara de enjoada)
Depois desta visita, continuei o meu périplo religioso e fui à Igreja do Santo Sepulcro.
Não tirei fotografias porque a confusão era tanta e lá dentro tão escuro que não iam sair fotos de jeito nenhumas...!
Logo à entrada está uma pedra grande no chão (que estou a ler na wikipedia que foi onde supostamente prepararam o Jesus para ser sepultado) onde toda a gente quer por as mãos e tirar fotografias parvas assim.
Depois segue-se uma sucessão de espaços diferentes, mas todos tão desordenados e com obras que é difícil de perceber como é o layout geral da igreja... Para além da desorganização espacial, a quantidade de pessoas que por ali andam a falar alto e a tirar fotografias a tudo e mais alguma coisa, faz com que a confusão seja ainda maior. Para ajudar à festa, dentro desta igreja existem 6 grupos diferentes de ordens religiosas católicas que reclamam a santidade do espaço para si, e guerreiam tanto entre si, que desde o século XVIII que é uma família muçulmana que guarda a chave da igreja. Como é óbvio não se respeitam e fazem as suas cerimónias e rezas sem se importarem uns com os outros ou se vão incomodar o vizinho com cânticos e fumos de incenso malcheirosos.
Não estive lá dentro muito tempo, só o suficiente sentada num dos bancos de madeira para descansar as pernas, e vim-me logo embora a pensar que ao menos os judeus são organizados e têm todas as proibições bem sinalizadas e o apoio extra daquelas pessoas contratadas para rezar que amavelmente também prestam serviços de policiamento...
Depois deste passeio religioso, senti-me tão cansada, que me arrastei de volta pela Jaffa Street acima só a pensar em me deitar na minha cama do beliche do hostel... Quando lá cheguei, fiquei a descansar o resto do dia e à noite comi mais uns noodles instantaneos e fui dormir a noite dos justos -- até porque no dia seguinte tinha de me levantar às 3h da manhã porque o autocarro da excursão para o Mar Morto saía às 4h do hostel, mas esta é uma outra aventura!
Beijinhos para todos e até à próxima aventura!











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